- sobre a pesquisa -

Por que Dias Potenciais de Gravidez Perdidos?

Em países de renda baixa e média, além dos problemas de saúde materno-infantil associados à pobreza e ao acesso precário a cuidados seguros (“muito pouco, muito tarde”, MPMT), também temos problemas associados a o uso desregulado e inadequado de intervenções no parto (“muito, muito cedo”, MMC geralmente menos visível aos sistemas de informação). Um dos efeitos do MMC, principalmente das cesárias eletivas, é o encurtamento da gravidez. Bebês nascidos no período de "termo precoce" (37 semanas 0/7 dias a 38 semanas e 6/7 dias) podem ter resultados de saúde mais semelhantes aos nascidos prematuros do que aqueles nascidos no período "termo pleno" (> 39 semanas), incluindo o aumento de complicações respiratórias e metabólicas, admissão na Unidade de Terapia Intensiva, baixo peso ao nascer, dificuldades de amamentação e efeitos em longo prazo.
Nossa ideia era aumentar a granularidade dos dados da idade gestacional (IG) para os dias de gravidez e desenvolver uma medida inovadora de IG, chamada de "dias potenciais de gravidez perdidos" (DPGP = IG - 280 dias), como variável dependente e independente, explorar sua associação com atributos maternos e infantis, morbidade e mortalidade. Dado o recente aumento na mortalidade infantil e materna, trabalhamos com parceiros locais para otimizar a tradução do conhecimento da pesquisa e desenvolver alternativas de visualização para ambientes específicos.


Em parceria com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Prefeitura Municipal de São Paulo (MSP) foram analisados ​​dados de 1.525.759 nascidos vivos do município (2012-2019), sendo 504.302 com IG em dias, e em nível nacional, 8.854.727 nascidos vivos, 3.329.339 com IG em dias. Ambos os conjuntos de dados foram vinculados ao SIM (sistema de informação sobre mortalidade) e, em nível municipal, também ao sistema de internação hospitalar (SIH). Os registros sem informação da IG em dias foram analisados ​​nas semanas de gestação e, alternativamente, foram desenvolvidos modelos de imputação de dados faltantes para a base municipal. A análise descritiva e estratificada incluiu grupos sociodemográficos, obstétricos e de Robson, setor público ou privado, análise espacial e uso de Equiplots. A razão de risco (HR) para mortalidade neonatal precoce, neonatal e infantil foi calculada para cada dia de IG durante o período letivo, controlando para educação materna, sistema de financiamento, modalidade de parto, cor da pele e paridade. Comparamos os dados em dias e semanas, e as tendências de IG e taxa de cesárea no período de 2012-2019.

Alguns dos principais insights e resultados são:
- No período de gestação, em nível nacional e municipal, todos os modelos apresentam diferenças significativas na mortalidade neonatal de Hazard Ratio por DPGP, confirmando que “cada dia conta”.
- A cesárea das mulheres ricas e das pobres são diferentes em atributos de IG, obstétricos e clínicos, com as mais pobres com piores resultados, refletindo diferenças no acesso à tecnologia para compensar os efeitos do DPGP (ex. Admissão na UTIN).
- Mulheres com maior escolaridade, residentes em áreas de maior IDH, tendem a ter parto prematuro, perdendo mais dias no período a termo. Em todas as análises, encontramos uma “inversão da disparidade esperada” na IG, pois nas décadas anteriores esperaríamos o contrário.
- Para mulheres com gestações a termo, o risco de longa internação e readmissão hospitalar é maior em mulheres com gestações mais curtas.
- A análise dos grupos de Robson é útil não só para indicar o excesso de cesáreas e calcular a perda de dias por grupo, mas também para estudar o uso excessivo da indução (“alta intervenção / baixa compaixão”). A qualidade da informação sobre a indução (por exemplo, distinguir “indução” de aumento) é variável.
- A alfabetização em dados dos profissionais e gestores de saúde é variável e tende a ser baixa, por isso estamos produzindo um site, podcasts e vídeos sobre a pesquisa, e organizando um curso de alfabetização em dados a ser realizado em fevereiro / 2021, na Faculdade de Saúde Pública da USP, experimentando visualização de dados e tradução de conhecimento, incluindo um aplicativo sobre mortalidade local e tendências de GA.
- Propomos uma pequena, mas altamente promissora alteração nos campos 31/32 do formulário SINASC, para incluir IG em dias, com base (1) no último período menstrual (DUM) (2) ultrassonografia (US) com IG acrescentando a respectiva data de 1o. exame; e (3) exame físico (feito ao nascer). Com 3 medidas, poderíamos construir curvas para comparar e complementar a precisão dos DPGP, mesmo em mulheres sem DUM ou US, e calcular a sub e superestimação de IG e seus efeitos.
- A pandemia covid acrescentou interrupções variáveis ​​ao cuidado perinatal, como suspensão de consultas pré-natais, redução e deslocamento de leitos obstétricos de referência e riscos de infecção covid-19 para mulheres e famílias na admissão hospitalar geral. Essas tendências de 2020 estão sendo mapeadas.
- Bancos de dados: atualmente possuímos bases municipais e nacionais, com idade gestacional em dias e semanas, com e sem imputação. Produzimos uma Ontologia das bases e vínculos SINASC-SIM, e pretendemos disponibilizá-las para fins de pesquisa e ensino em breve.

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